Sábado, 4 de Abril de 2026

JORNAL DA ANASPS - A Geap e suas mazelas - Judicializamos

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27 de fevereiro de 2026 às 08:48
Comunicação Anasps
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JORNAL DA ANASPS - A Geap e suas mazelas - Judicializamos

A Geap já foi sinônimo de segurança para o servidor público. Um porto seguro em meio às incertezas da vida funcional. Quem entrava no serviço público sabia: havia ali um plano de saúde sólido, tradicional, quase uma extensão da própria carreira.

Mas algo se perdeu no caminho.

De 700 mil participantes, restam pouco mais de 300 mil. Não foi uma queda brusca como um raio em céu azul. Foi um encolhimento lento, contínuo, quase silencioso — daqueles que só percebemos quando o estrago já está feito. A cada descredenciamento, a cada hospital que sai da rede, a cada laboratório que encerra parceria, um pedaço da confiança também vai embora.

Hoje, fala-se mais em evasão do que em expansão. Clínicas deixam de atender, profissionais migram, hospitais se afastam. O beneficiário, que deveria ser o centro do sistema, passa a ser refém dele. Liga, reclama, aguarda. E paga. Sempre paga.

Há mais de dez planos diferentes — enfermaria, apartamento, combinações diversas. Uma arquitetura complexa que mais confunde do que acolhe. Enquanto isso, multiplicam-se estruturas administrativas robustas, conselhos remunerados que integram a própria diretoria, salários de dirigentes acima de R$ 45 mil.

Seria a teoria do caos?

Não. O caos é imprevisível.

Aqui parece haver algo mais concreto: problema de governança. Fragilidade de compliance. Falhas de gestão.

O plano é do servidor público. Não sofre com inadimplência crônica como tantos outros do mercado. Tem público cativo, tem base sólida, tem história. Ainda assim, tornou-se caro — especialmente para quem mais precisa: os idosos acima de 59 anos, justamente aqueles que contribuíram a vida inteira e agora enfrentam mensalidades cada vez mais pesadas.

O paradoxo é cruel: quem mais depende do plano é quem mais sente o peso dele.

A Geap não implodiu por falta de público. Implodiu por falta de rumo.

E plano de saúde, como instituição pública de interesse coletivo, não pode viver de improviso. Precisa de estratégia, transparência e responsabilidade.

Talvez ainda haja tempo de reconstruir.

Mas reconstrução exige reconhecer erros, rever estruturas e colocar o beneficiário no centro — não como número em planilha, mas como razão de existir.

Porque, no fim das contas, plano de saúde não é apenas contrato.

É confiança.

“Por Paulo César Regis de Souza

Vice-presidente executivo da Associação Nacional dos Servidores Públicos, da Previdência e da Seguridade Social”

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